O Projeto

     A obra do Ginásio Nossa Senhora Auxiliadora durou vários anos e, para sua construção, foram empregadas técnicas e materiais tão nobres quanto os ideais dos que a construíram.

     Na época, final dos anos 40, toda a comunidade estava unida na intenção de construir uma cidade perfeita para se viver. As famílias que vieram para a região priorizavam um futuro promissor para seus filhos e, o ensino, a cultura, e os valores morais pairavam acima de tudo. Tanto que a própria Igreja autorizou o início das obras antes mesmo que a Catedral de Pedra subisse suas paredes.
     Mas essa história, com começo de conto de fadas, estava prestes a acabar mal a menos de 70 anos de seu início.

     O crescimento desenfreado do comércio em torno do principal ponto turístico da cidade estava mudando toda a paisagem. A desordem urbana e a poluição visual já começavam a apagar toda a beleza do lugar. Urgia que algo fosse feito antes que mais um patrimônio da história de Canela desaparecesse, transformando em utopia o sonho dos seus antepassados.
     O imponente edifício onde um dia funcionou o Ginásio Nossa Senhora Auxiliadora estava se deteriorando a cada dia. As novas gerações pouco sabiam sobre essa construção tão diferente da arquitetura típica da serra e nem como ela viera parar ali, ou qual era seu estilo.
     Com seus nomes ainda sinalizados nas portas das salas da antiga escola, os Wender, Corrêa, Zanatta, Carniel, Zorzi, Travi, Baldasso e os representantes de tantas outras famílias que formaram a cidade pareciam clamar para que seus esforços e sua memória não caísse no esquecimento, e que as próximas gerações pudessem ter um sentimento de orgulho pelos feitos de seus ancestrais.
     A reabilitação do prédio, dando um novo uso para essa construção tão emblemática para a cidade foi um grande desafio e motivo de realização e orgulho para todos os envolvidos.
     Mais de 50 profissionais trabalharam, e continuarão trabalhando ainda por um bom tempo, para devolver à cidade o prédio de 2.100 m² reabilitado e com suas características de volumetria originais totalmente preservadas.

Cientes de que a iniciativa privada pode e deve protagonizar ações que beneficiem toda a comunidade, e conscientes da importância que representam as construções históricas, os empreendedores da obra logo perceberam que a recuperação do prédio certamente colaboraria também para modificar a paisagem do entorno e contribuiria com a missão para o qual foi construído.

     Com uma visitação de cerca de 6 milhões de pessoas por ano, registrada em milhares de fotografias e vídeos, a quadra da Igreja sempre foi um dos principais cartões postais da Serra, responsável por imprimir para sempre na memória dos visitantes a imagem de Canela.
     

     Os responsáveis pelo empreendimento decidiram entregar a nobre missão de resgatá-lo em suas origens e devolvê-lo para a cidade renovado, a um conceituado profissional, cujos princípios e ideais eram os mesmos seus.

     Foi assim que o arquiteto Rafael Pazetto, passou a se dedicar ao projeto de corpo e alma e em tempo integral, trabalhando na ideia por mais de dois anos. O tempo de maturação envolveu muita dedicação e pesquisa. Era importante buscar referências, procurar materiais adequados, aprender sobre as técnicas construtivas da época e um pouco mais sobre o conceito do prédio que emana cultura em todos os seus detalhes.

     A vontade de criar um envolvimento com as pessoas que frequentaram o Ginásio Auxiliadora e de deixar um legado para a cidade com uma nova imagem plena de significados e conteúdo regional, marcou as principais características do projeto que foi apresentado e aprovado pelo Conselho Municipal do Patrimônio Histórico.

     

     Ao tomar para si essa importante tarefa, os profissionais envolvidos fizeram uma avaliação minuciosa e perceberam que se tratava de uma construção sólida, cujas características mereciam ser preservadas, por seu significado e por ocupar um dos espaços mais nobres da cidade. Desde o início houve a preocupação de não mexer em nada, de dar o exemplo para a cidade de que é possível recuperar as antigas técnicas de construção fazendo um trabalho impecável e preservando o que já existe.

 

     O engenheiro executor da obra, Sandro Bazzan, encontrou as estruturas em excelentes condições, contando inclusive com vigas de concreto e alvenaria no primeiro pavimento, pouco comuns para a época. As intervenções foram muito poucas, apenas no que não podia ser recuperado. Quase tudo pode ser reaproveitado, as tesouras do telhado estavam tecnicamente muito bem construídas, com carpintaria de primeira linha. As venezianas de louro das janelas, com os marcos externos de resistente canjerana, precisaram apenas de reforma e foram restauradas.

     Externamente, nada mais verdadeiro e autêntico do que preservar as paredes de “pedra fingida”, a antiga técnica artesanal, conhecida como Cirex, de argamassa composta por cimento, areia e outros componentes como cal, mica, pigmentos e pó de pedra, sem qualquer padronização de traço e composição. Cada “receita” era única e dependia da maestria dos frentistas, mão de obra especialista que quase ninguém domina mais, mas que era utilizada na maioria dos prédios públicos e escolas do século passado por sua durabilidade. Agora, com a cor um pouco mais escura que a original, as paredes da Casa Auxiliadora são capazes de refletir um brilho todo especial quando o sol incide sobre elas.

     Na estrutura interna foram feitos ajustes para melhorar o uso, com reforma das instalações elétricas e hidráulicas bem como colocação de recursos modernos como elevadores, ar condicionado, água quente, e isolamentos térmicos e acústicos.

     O resgate histórico apontou para uma imagem externa vintage, anos 50, e a arquitetura foi totalmente preservada valorizando o estilo Art Déco da época da construção. A vocação de enaltecer os valores essenciais humanos, pediu reaproveitamentos, despoluição visual, valorização dos materiais simples e dos elementos ecologicamente corretos e sustentáveis.

Foi um trabalho desafiador e intenso, que obrigou a todos a abandonar a rotina do dia a dia e descobrir por trás de cada parede um pouco da história da construção original. Uma dedicação especial que vai ficar marcada na história como exemplo que agregou valor à cidade, preservando o que é bom e bonito . Uma verdadeira aventura movida pela paixão de pessoas que buscam dar o seu melhor sempre, com coerência no pensar e no agir e constância no realizar coisas boas, e que escolheram dedicar suas vidas para tentar modificar para melhor o espaço onde vivem.

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